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A questão já não é apenas saber quem estava certo sobre “Reacende a Chama”. O episódio passou a testar algo ainda mais profundo no cristianismo: o que um líder faz depois de perceber que sua palavra pode ter ferido, desacreditado ou julgado injustamente o trabalho de outra pessoa?

A polêmica envolvendo “Reacende a Chama”, interpretada por Sued Silva, ganhou força depois que o bispo Samuel Ferreira fez uma crítica inequívoca à canção, chegando a classificá-la como “lixo”. Durante aquela conversa, o pastor Antônio Calixto participou do raciocínio crítico, comentou sobre uma suposta onda de “hinos depressivos” e recorreu a Santo Agostinho para falar do perigo de alguém ser conduzido pela emoção de uma música sem prestar atenção ao conteúdo cantado.

O que Calixto quis dizer ao citar Santo Agostinho?

A intenção argumentativa de Calixto parece bastante clara quando a fala é observada dentro da sequência da conversa. Ele queria reforçar a ideia de que uma música pode emocionar, produzir entusiasmo e envolver quem a ouve, enquanto sua mensagem deveria ser examinada racionalmente e biblicamente.

Em outras palavras, o argumento era aproximadamente este: não basta uma música ser bonita ou causar emoção; é preciso prestar atenção no que está sendo cantado.

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Esse princípio, isoladamente, é defensável. O próprio Agostinho refletiu profundamente sobre o poder da música. Em Confissões, Livro X, capítulo 33, ele reconhece que o canto pode despertar devoção, mas demonstra preocupação quando a pessoa passa a ser mais movida pela beleza da execução do que pela verdade cantada.

O problema surge quando observamos para que esse princípio foi utilizado naquela conversa.

Calixto não apresentou Agostinho em um debate acadêmico abstrato sobre música cristã. A referência apareceu dentro de uma conversa em que Samuel Ferreira estava atacando diretamente “Reacende a Chama”. Portanto, mesmo que Calixto não tenha pronunciado a palavra “lixo”, sua intervenção funcionou como reforço retórico da crítica que estava sendo construída contra a canção.

Essa distinção é importante.

Não seria correto afirmar que Calixto chamou pessoalmente o louvor de “lixo”. A documentação disponível atribui essa expressão a Samuel Ferreira. Porém, também seria incompleto apresentar Calixto como mero espectador da conversa. Ele participou, concordou com parte da avaliação sobre os chamados “hinos depressivos” e acrescentou um argumento de autoridade — Santo Agostinho — que fortalecia naquele momento a tese defendida pelo bispo.

Existe, portanto, uma solidariedade argumentativa com a crítica — uma participação pública no raciocínio que procurava desacreditar a composição.

O problema é que o próprio Agostinho complica a defesa

Quando o texto de Santo Agostinho é lido por inteiro, surge uma ironia teológica importante.

Agostinho não apresenta a si mesmo como alguém incapaz de errar ao julgar a música. Pelo contrário. Depois de reconhecer o perigo de a melodia dominar a razão, ele também reconhece outro perigo: tornar-se rigoroso demais.

No mesmo capítulo, Agostinho admite que, tentando escapar do encantamento musical, ele próprio às vezes errava pelo excesso de rigor. Depois recorda como os cânticos da Igreja haviam contribuído para sua própria experiência de fé e conclui de maneira muito mais equilibrada que o canto pode conduzir pessoas à devoção.

Esse detalhe muda profundamente a utilização da citação.

Agostinho não ensina apenas: “cuidado para a música não enganar você”. Ele também ensina, por meio da própria confissão: “cuidado para o seu rigor não levar você ao erro”.

E existe algo ainda mais significativo. Quando Agostinho percebe que se deixou conduzir inadequadamente, ele confessa sua falha. Não constrói uma justificativa para preservar sua imagem. Ele reconhece sua própria vulnerabilidade.

Talvez essa seja a parte de Agostinho que mais precisa ser ouvida agora.

E quando examinamos a letra?

O princípio apresentado por Calixto exige que “Reacende a Chama” seja julgada pelo conteúdo.

Retire o arranjo.

Retire a interpretação de Sued Silva.

Retire a repercussão das redes sociais.

Retire as preferências musicais.

Restam perguntas objetivas:

Falar sobre o céu contraria as Escrituras?

Anunciar a volta de Cristo contraria as Escrituras?

Convocar cristãos à oração é erro doutrinário?

Defender santificação é erro doutrinário?

Convidar a Igreja a voltar ao primeiro amor é antibíblico?

Alertar contra uma fé reduzida a conquistas materiais é incompatível com o Evangelho?

É aqui que a situação de Calixto se torna particularmente delicada. Em uma pregação anterior, ele próprio afirmou que sua igreja continuava falando de céu, pecado e volta de Jesus. A lógica daquela mensagem admitia inclusive que poderiam existir igrejas nas quais esses assuntos já não recebiam a mesma ênfase.

Depois surge uma canção cuja mensagem trabalha justamente céu, volta de Cristo, oração, santificação e restauração — e Calixto aparece numa conversa em que a composição é duramente atacada.

É legítimo perguntar: qual afirmação concreta da música justificaria tamanha desqualificação?

Até aqui, a controvérsia pública mostrou críticas à generalização da letra e argumentos sobre a forma de falar da Igreja. Isso é diferente de demonstrar que a mensagem central da canção seja herética ou incompatível com as Escrituras.

A justificativa posterior também precisa ser examinada

Respeitar autoridades espirituais é princípio cristão, mas autoridade cristã vem acompanhada de responsabilidade cristã.

Conteúdos recentes que repercutiram falas de Calixto destacaram sua defesa do respeito às autoridades espirituais.

Essa preocupação pode ser legítima. O problema começa quando respeito é confundido com impossibilidade de correção.

A Bíblia apresenta líderes sendo corrigidos. Paulo relata que confrontou Pedro quando entendeu que sua conduta precisava ser corrigida — Gálatas 2:11-14. A autoridade de Pedro não transformou sua decisão em algo automaticamente correto.

Autoridade bíblica aumenta a responsabilidade; ela não elimina a possibilidade humana de erro.

Tiago 3:2 estabelece uma verdade desconfortável e libertadora: “todos tropeçamos em muitas coisas”.

Pastores tropeçam.

Bispos tropeçam.

Cantores tropeçam.

Jornalistas tropeçam.

Teólogos tropeçam.

Homens podem interpretar mal uma situação. Podem seguir um argumento equivocado. Podem ser influenciados pela autoridade de alguém que respeitam. Podem falar movidos pela intensidade de um momento e, posteriormente, perceber que foram além do que deveriam.

O caráter cristão não é demonstrado pela incapacidade de errar. Ele aparece na disposição de reconhecer o erro quando a verdade o revela.

Talvez a maior oportunidade cristã desta história ainda esteja diante deles

Se houve exagero, injustiça ou desqualificação indevida do trabalho de Sued Silva e dos responsáveis pela composição, uma correção pública seria muito mais poderosa do que qualquer tentativa de explicar a polêmica.

Provérbios 28:13 apresenta o caminho com simplicidade: quem confessa e abandona a transgressão alcança misericórdia.

Tiago 5:16 chama os cristãos à confissão uns aos outros.

Jesus coloca a reconciliação com o irmão em posição de enorme importância em Mateus 5:23-24.

Por isso, existe uma pergunta que precisa ser feita com responsabilidade aos envolvidos na desqualificação pública dessa canção:

Se perceberem que foram injustos, por que não pedir perdão com a mesma publicidade com que fizeram a crítica?

Isso não diminuiria Samuel Ferreira.

Não diminuiria Antônio Calixto.

Não destruiria ministérios.

Pelo contrário: mostraria aquilo que o Evangelho produz quando encontra um coração ensinável.

Sued Silva e os compositores não precisam ser considerados infalíveis. “Reacende a Chama” pode ser examinada. Pode ser debatida. Pode receber crítica teológica. Essa liberdade precisa ser preservada.

Mas existe uma diferença enorme entre analisar uma obra e desqualificá-la.

E quando uma palavra pública ultrapassa essa fronteira, reconhecer isso também deveria fazer parte do testemunho cristão.

No fim, talvez Santo Agostinho ainda tenha a palavra mais importante

Calixto recorreu a Agostinho para alertar que alguém pode ser conduzido pela emoção de uma música. O texto completo de Agostinho acrescenta outra advertência: também podemos ser conduzidos ao erro pelo nosso próprio rigor.

Esse talvez seja o ponto central de toda a controvérsia.

O homem pode errar.

O líder pode errar.

A multidão pode seguir um erro.

Uma pessoa pode reforçar o argumento de outra e perceber depois que deveria ter sido mais cuidadosa.

O Evangelho oferece um caminho para depois do erro: humildade, verdade, confissão, reconciliação e, quando necessário, pedido de perdão.

Por isso, o capítulo final dessa história ainda não foi escrito.

Samuel Ferreira, Antônio Calixto e qualquer outro líder que tenha participado publicamente da tentativa de diminuir ou desacreditar o trabalho de Sued Silva têm diante de si uma oportunidade muito maior do que vencer uma discussão sobre música: mostrar como um cristão age quando percebe que pode ter ferido injustamente outro cristão.

Porque daqui a alguns anos, talvez poucos se lembrem de cada frase pronunciada naquele programa.

Mas muitos poderão se lembrar do que aqueles homens fizeram depois que as palavras foram ditas.

E talvez seja exatamente aí que esteja o testemunho que realmente importa.

Homens de Deus também podem errar. A grande diferença está em terem humildade suficiente para reconhecer o erro, reparar o dano e pedir perdão.

FONTE/CRÉDITOS: Roteiro Cristão