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A política brasileira costuma apresentar Lula e Bolsonaro como representantes de dois países completamente opostos. De um lado, está um projeto baseado na ampliação das políticas sociais e na participação do Estado na economia. Do outro, uma proposta conservadora nos costumes e liberal no campo econômico.
Essa diferença existe. Porém, a realidade também revela pontos de encontro, mudanças de posição e resultados que precisam ser avaliados sem paixão partidária.
Comparar os dois governos exige cautela. Jair Bolsonaro governou entre 2019 e 2022 e enfrentou a pandemia de Covid-19. Luiz Inácio Lula da Silva iniciou seu terceiro mandato em 2023 e ainda está no cargo. Além disso, presidentes não controlam sozinhos educação, saúde e segurança. Estados, municípios, Congresso Nacional, Poder Judiciário e cenário internacional também influenciam esses resultados.
A pergunta correta, portanto, vai além de saber qual político parece melhor. O ponto central é compreender o que realmente melhorou, o que piorou e quais resultados podem ser comprovados.
Educação: recuperação recente favorece o governo Lula
A educação apresentou avanços mais claros durante o atual governo Lula.
Entre 2023 e 2025, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, conhecido como Ideb, cresceu em todas as etapas avaliadas. Nos anos iniciais do ensino fundamental, passou de 6,0 para 6,3. Nos anos finais, subiu de 5,0 para 5,3. No ensino médio, avançou de 4,3 para 4,5.
Os resultados de 2025 foram os maiores da série histórica iniciada em 2005. A aprendizagem de português e matemática também apresentou crescimento, segundo o Inep.
O governo Bolsonaro chegou a registrar avanços específicos antes da pandemia, como o crescimento das matrículas em creches públicas em 2019. A crise sanitária, porém, provocou fechamento de escolas, abandono escolar e perda de aprendizagem.
Parte desses problemas ocorreu em vários países. Mesmo assim, a coordenação nacional da educação durante a pandemia foi alvo de críticas, principalmente pela dificuldade de estabelecer uma estratégia integrada para manter o vínculo dos estudantes com as escolas.
Os números atuais favorecem Lula. Esse mérito, contudo, precisa ser compartilhado com professores, escolas, estados e municípios, responsáveis pela maior parte da educação básica.
Segurança: os homicídios caíram nos dois períodos
A segurança pública apresenta um cenário mais equilibrado.
O governo Bolsonaro começou em um momento de forte redução dos homicídios. Em 2019, o Brasil registrou 45.503 homicídios, com taxa de 21,7 mortes por 100 mil habitantes. A queda foi significativa em comparação com os níveis registrados anteriormente.
A redução continuou durante o atual governo. Os Crimes Violentos Letais Intencionais passaram de 42.190 registros em 2022 para 40.464 em 2023, uma queda de aproximadamente 4,1%.
Esses números permitem reconhecer avanços nos dois períodos. Bolsonaro governou durante parte importante da queda. Lula manteve essa trajetória.
A responsabilidade, entretanto, não pertence exclusivamente ao presidente. As polícias militares e civis são comandadas pelos governos estaduais. Investigações, patrulhamento, sistema penitenciário e políticas locais possuem enorme peso sobre o resultado.
Mudanças nas disputas entre organizações criminosas, envelhecimento da população e programas estaduais também ajudam a explicar a redução.
Na segurança, a conclusão mais honesta é que o Brasil avançou durante os dois governos. Transformar essa melhora em vitória exclusiva de um presidente seria simplificar um fenômeno complexo.
Saúde: vacinação melhora, mas pandemia ainda pesa na avaliação
A saúde é uma das áreas de maior contraste.
Durante o governo Bolsonaro, o Brasil enfrentou a maior crise sanitária de sua história recente. O Sistema Único de Saúde realizou milhões de atendimentos, e a vacinação contra a Covid-19 começou em janeiro de 2021. O país conseguiu aplicar centenas de milhões de doses.
Ao mesmo tempo, a atuação presidencial foi marcada por conflitos com autoridades sanitárias, defesa de medicamentos sem eficácia comprovada e questionamentos sobre vacinas. A demora em algumas negociações para compra de imunizantes também se tornou objeto de investigações e críticas.
A vacinação infantil de rotina perdeu força nesse período. A pandemia dificultou o acesso aos postos, mas a desinformação e a falta de campanhas nacionais consistentes também contribuíram.
Desde 2023, os índices começaram a se recuperar. O número de municípios que alcançaram simultaneamente as metas de quatro vacinas infantis passou de 1.611, em 2022, para 2.685, em 2024.
Entre 2022 e 2025, a cobertura da segunda dose da tríplice viral cresceu 35,5%. O reforço contra a poliomielite aumentou 26,3%, segundo o Ministério da Saúde.
Os dados favorecem o governo Lula na recuperação da vacinação. Ainda assim, algumas coberturas permanecem abaixo das metas, mostrando que o problema está longe de ser resolvido.
Habitação: entregas de um lado, novas contratações do outro
A habitação exige atenção aos termos usados nos anúncios oficiais.
O governo Bolsonaro informou ter entregado aproximadamente 1,6 milhão de moradias entre 2019 e 2022 por meio do Casa Verde e Amarela. Também retomou cerca de 145 mil unidades que estavam paralisadas.
Esse resultado beneficiou milhões de brasileiros. Entretanto, parte das moradias entregues havia sido contratada ou iniciada em governos anteriores. Isso acontece porque um empreendimento habitacional pode levar vários anos entre o planejamento e a entrega das chaves.
O governo Lula retomou o nome Minha Casa, Minha Vida e ampliou as modalidades subsidiadas para famílias pobres. Somente em 2024, o programa registrou aproximadamente 1,25 milhão de unidades contratadas.
Uma casa contratada representa um projeto autorizado ou financiado. Uma casa entregue já está pronta para ser ocupada. Colocar os dois números lado a lado, como se representassem a mesma etapa, produziria uma conclusão enganosa.
Bolsonaro apresenta um volume expressivo de entregas. Lula apresenta forte expansão das contratações. O resultado definitivo do atual governo dependerá da conclusão dessas obras.
Trabalho: desemprego cai nos dois governos e atinge mínima com Lula
O mercado de trabalho melhorou no final do governo Bolsonaro e avançou ainda mais durante o governo Lula.
A taxa média de desemprego estava em 11,8% em 2019. Com a pandemia, subiu para 13,5% em 2020. Depois, começou a cair e terminou 2022 em aproximadamente 9,3%.
Essa recuperação precisa ser reconhecida. O governo Bolsonaro encerrou seu mandato com desemprego inferior ao encontrado no início, apesar da crise provocada pela Covid-19.
No governo Lula, a redução continuou. A taxa média caiu para 7,8% em 2023, 6,6% em 2024 e 5,6% em 2025. Esse foi o menor resultado anual da série histórica da PNAD Contínua, pesquisa oficial do IBGE.
O rendimento médio do trabalhador também alcançou R$ 3.367 em 2025.
Os números favorecem Lula. Ainda assim, permanecem desafios como informalidade, baixa produtividade, custo de vida elevado e dificuldade de acesso a empregos de qualidade.
Ter alguma ocupação representa um avanço. Conseguir um trabalho estável, protegido e com salário suficiente para sustentar uma família representa um avanço ainda maior.
Pobreza: Bolsonaro teve alívio temporário; Lula registra queda contínua
A distribuição de renda revela um dos contrastes mais importantes.
Em 2020, o Auxílio Emergencial criado durante o governo Bolsonaro protegeu milhões de famílias. A pobreza caiu de 25,9% da população em 2019 para 24,1% em 2020.
O programa teve impacto real e evitou uma crise social ainda maior. Segundo o IBGE, sem os benefícios sociais, 32,1% da população estaria na pobreza naquele ano.
O resultado, porém, perdeu força após a redução do auxílio. Em 2021, a pobreza subiu para 29,4%, atingindo 62,5 milhões de brasileiros. Em 2022, chegou a 31,6% pelos critérios utilizados posteriormente pelo IBGE.
Durante o governo Lula, a proporção caiu para 27,4% em 2023 e para 23,1% em 2024. Milhões de pessoas ultrapassaram a linha de pobreza.
A melhora está relacionada ao Bolsa Família, ao aumento do emprego, à valorização real do salário mínimo e ao crescimento da renda do trabalho.
Bolsonaro apresentou uma resposta social importante durante a pandemia. Lula registra uma redução mais duradoura da pobreza até este momento.
Diferentes nos projetos, semelhantes na necessidade de negociar
Lula e Bolsonaro possuem projetos políticos distintos.
Lula defende maior atuação do Estado, fortalecimento dos programas sociais, valorização do salário mínimo e investimento público como instrumento de desenvolvimento.
Bolsonaro governou com uma equipe econômica de orientação liberal, defendendo privatizações, concessões e redução da participação estatal. Nos costumes, adotou posições conservadoras e construiu forte proximidade com parte do segmento evangélico.
A prática do poder, contudo, aproximou os dois em alguns pontos.
Ambos precisaram construir alianças com o Centrão, liberar emendas parlamentares, entregar cargos a partidos aliados e negociar votações no Congresso. Os dois também ampliaram programas sociais em momentos politicamente importantes.
Essas semelhanças ajudam a explicar por que muitos brasileiros enxergam os dois governos como partes de uma mesma política tradicional. As prioridades são diferentes, mas os instrumentos usados para garantir apoio no Congresso frequentemente se parecem.
O eleitor cristão precisa avaliar frutos, princípios e responsabilidades
A fé cristã não oferece autorização automática a nenhum partido.
O eleitor cristão pode considerar valores relacionados à família, liberdade religiosa e proteção da vida. Também precisa observar justiça, honestidade, cuidado com os pobres, defesa da verdade, respeito às autoridades e responsabilidade com o dinheiro público.
Um candidato pode apresentar um discurso religioso convincente e uma administração ineficiente. Outro pode promover políticas sociais relevantes e, ao mesmo tempo, adotar posições que entram em conflito com convicções cristãs.
Uma análise madura considera o conjunto.
A pergunta “qual político representa o meu grupo?” limita o discernimento. Perguntas mais profundas ajudam a iluminar o debate:
Os pobres tiveram suas condições de vida melhoradas? As crianças aprenderam mais? A saúde pública protegeu a população? A violência diminuiu? O dinheiro público foi usado com responsabilidade? O governante respeitou a verdade e as instituições? As promessas foram confirmadas pelos resultados?
Conclusão
Os dados disponíveis favorecem o atual governo Lula em educação, vacinação, emprego e redução da pobreza. Bolsonaro apresenta resultados positivos na queda inicial dos homicídios, na recuperação do trabalho após a pandemia, no Auxílio Emergencial e na entrega de moradias.
Isso não transforma Lula em governante sem falhas. Também não torna Bolsonaro responsável por todos os problemas ocorridos entre 2019 e 2022.
A realidade é mais ampla que a propaganda política.
Lula e Bolsonaro representam projetos diferentes, mas ambos governaram por meio de alianças, negociações e escolhas pragmáticas. Cada um possui resultados que podem ser reconhecidos e decisões que precisam ser questionadas.
O papel do jornalismo é apresentar fatos antes de alimentar preferências. O papel do cidadão é comparar discursos com resultados. E o compromisso do cristão deve permanecer com a verdade, mesmo quando a verdade contraria o político de sua preferência.
Fontes consultadas: IBGE, Inep, Ministério da Saúde, Ministério da Justiça e Segurança Pública, Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério das Cidades e Atlas da Violência/Ipea.
Publicado por:
Roteiro Cristão
Joaby Silva Coelho é jornalista, comunicador e fundador do site Roteiro Cristão, um portal dedicado à produção de conteúdo sobre fé, cultura, sociedade e os principais acontecimentos do meio cristão.
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