Quando Jesus deixou o templo de Jerusalém e seguiu para o Monte das Oliveiras, os discípulos fizeram uma pergunta que atravessaria os séculos: “Que sinal haverá da tua vinda e do fim dos tempos?” A resposta registrada em Mateus 24, Marcos 13 e Lucas 21 se tornou uma das principais períopes escatológicas do Novo Testamento.

A perícope é uma unidade de texto que desenvolve um pensamento completo. No discurso do Monte das Oliveiras, portanto, não é correto retirar “guerras”, “fomes” ou “terremotos” do restante da fala e transformá-los, isoladamente, em um relógio profético. Jesus constrói um raciocínio progressivo.

E quando esse raciocínio é colocado diante dos dados mundiais atuais, surge uma conclusão mais séria do que os discursos alarmistas normalmente apresentam: alguns elementos descritos por Cristo estão hoje extraordinariamente visíveis, enquanto outros não apresentam crescimento estatístico. Ainda assim, o conjunto permanece surpreendentemente próximo do cenário que Jesus descreveu há cerca de dois mil anos.

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Primeira perícope: Jesus começa advertindo contra o engano

O primeiro movimento de Mateus 24:4–8 começa com uma advertência, não com uma catástrofe.

Antes de falar sobre guerras, fome ou terremotos, Jesus orienta seus discípulos a tomarem cuidado para que ninguém os engane.

Essa ordem estabelece a chave interpretativa da passagem.

A escatologia cristã começa com discernimento.

Isso significa que o cristão não precisa alterar dados para defender as Escrituras. Também não precisa transformar cada terremoto, epidemia ou guerra em uma declaração de que “o fim chegou”.

A defesa racional da fé cristã, chamada de apologética, exige justamente o contrário: confrontar a afirmação bíblica com os fatos e permitir que cada evidência diga exatamente aquilo que pode dizer.

É nesse ponto que os números recentes se tornam especialmente interessantes.

“Ouvireis falar de guerras e rumores de guerras”

Entre todos os fenômenos analisados, as guerras apresentam uma das correspondências contemporâneas mais fortes com o discurso de Jesus.

Cristo afirmou que os discípulos ouviriam falar de “guerras e rumores de guerras” e acrescentou que “nação se levantaria contra nação e reino contra reino”, conforme Mateus 24:6–7.

Em 2025, o Uppsala Conflict Data Program (UCDP) registrou 65 conflitos armados envolvendo Estados, o maior número desde o início da série histórica, em 1946. Desses conflitos, 13 alcançaram a classificação de guerra, definida pelo UCDP como um conflito que provoca pelo menos mil mortes relacionadas a combates durante um ano. Foi o maior número de guerras desde 1992. Cerca de 244,6 mil pessoas morreram em violência organizada somente em 2025.

O dado merece atenção.

Jesus não disse simplesmente que existiriam guerras. Guerras já faziam parte da história humana muito antes do primeiro século. A passagem apresenta um mundo marcado por conflitos entre povos e reinos dentro de uma sequência maior de acontecimentos.

Os números atuais mostram que a violência organizada entre Estados alcançou um nível excepcionalmente elevado.

Isso não permite marcar uma data para a volta de Cristo.

Mas também torna difícil tratar a descrição de Jesus como uma imagem desconectada da realidade contemporânea.

Terremotos: a Bíblia não precisa de números manipulados

O caso dos terremotos oferece talvez o melhor exemplo de como uma apologética responsável deve funcionar.

Jesus afirmou que haveria terremotos em vários lugares.

Eles continuam acontecendo e causando destruição em diferentes partes do planeta. Porém, os dados científicos não sustentam a afirmação popular de que o planeta esteja necessariamente experimentando um crescimento contínuo dos grandes terremotos.

O Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, explica que aumentos e quedas temporárias fazem parte da variação natural da atividade sísmica. A instituição calcula uma expectativa de aproximadamente 16 grandes terremotos por ano no longo prazo, sendo cerca de 15 na faixa de magnitude 7 e um de magnitude 8 ou superior.

O USGS também explica por que hoje temos a impressão de saber sobre terremotos o tempo inteiro: existem mais instrumentos, melhor comunicação e capacidade muito maior de detectar eventos. O centro americano localiza atualmente cerca de 20 mil terremotos por ano, aproximadamente 55 por dia.

A base internacional EM-DAT apresenta outra cautela importante. O crescimento histórico de desastres registrados é afetado pela melhoria do sistema de comunicação e documentação e, portanto, a própria base recomenda cuidado ao usar esses registros como prova de aumento físico dos eventos.

Aqui está um ponto apologético importante: Jesus disse que haveria terremotos em vários lugares. O texto não afirma explicitamente que a frequência geológica mundial dos terremotos aumentaria de forma contínua.

Não precisamos acrescentar ao texto aquilo que Cristo não afirmou.

A força da profecia deve permanecer no que está escrito.

Fome: menos fome crônica no mundo não invalida Mateus 24

A fome produz outro contraste importante.

Por volta de vinte anos atrás, os organismos internacionais trabalhavam com um contingente mundial superior a 850 milhões de pessoas sofrendo de fome e subnutrição. Hoje, segundo o relatório The State of Food Security and Nutrition in the World 2026, aproximadamente 645 milhões de pessoas enfrentaram fome em 2025.

Portanto, houve melhora global quando se observa a fome crônica.

À primeira vista, alguém poderia perguntar: isso enfraquece a profecia de Jesus?

O próprio texto responde.

Cristo não afirmou que a porcentagem mundial de pessoas subnutridas cresceria todos os anos até sua volta. Ele falou em fomes, no plural, dentro de um mundo marcado por convulsões em diferentes lugares.

Fome global crônica e crises agudas de fome também são fenômenos distintos. Uma população pode entrar em situação extrema por causa de guerra, deslocamento, colapso econômico ou interrupção da produção de alimentos mesmo quando o indicador mundial apresenta melhora.

A leitura adequada da perícope, portanto, preserva tanto a Bíblia quanto os dados.

“Haverá pestes”: um aviso que ganhou dimensão mundial

Lucas acrescenta um elemento particularmente significativo.

Em Lucas 21:11 aparecem grandes terremotos, fomes e pestes.

O termo aponta para doenças epidêmicas capazes de atingir comunidades e populações.

A geração atual atravessou algo que poucas gerações recentes haviam experimentado em escala semelhante: uma pandemia global capaz de interromper fronteiras, viagens, atividades religiosas, empresas, escolas e sistemas de saúde.

Mas mesmo aqui é necessário evitar uma comparação estatística artificial.

Um estudo publicado no BMC Public Health identificou 1.525 eventos epidêmicos registrados no EM-DAT entre 1900 e 2023, dos quais 892 ocorreram entre 2000 e 2023. Os pesquisadores, porém, apontam limitações históricas importantes na classificação e no registro desses eventos. Pandemias, inclusive, recebem tratamento separado na estrutura do banco.

A própria Organização Mundial da Saúde alerta que seus boletins de surtos, chamados Disease Outbreak News, não representam uma relação completa de todos os surtos existentes no planeta.

A conclusão responsável é clara: existem pestes e grandes surtos exatamente como parte da realidade humana descrita por Lucas, mas os dados disponíveis ainda não permitem afirmar com precisão que exista uma curva histórica contínua de crescimento mundial das epidemias.

E as enchentes?

As enchentes merecem uma correção teológica importante.

Jesus compara sua futura manifestação aos dias de Noé em Mateus 24:37–39. Entretanto, o ponto da comparação não é uma profecia de que aumentaria o número de enchentes antes do fim.

A unidade de pensamento trata da surpresa.

Nos dias anteriores ao Dilúvio, a vida seguia sua rotina. Pessoas comiam, bebiam, casavam e organizavam seus assuntos até que chegou aquilo para o qual não estavam preparadas.

A aplicação feita por Cristo está na inesperada chegada do juízo.

Portanto, mesmo que bases internacionais registrem grande número de enchentes contemporâneas, transformar esse fenômeno especificamente em “cumprimento da profecia do Dilúvio” ultrapassaria o sentido da perícope.

A boa exegese protege a fé de argumentos frágeis.

“Tudo isso é o princípio das dores”

Depois de falar sobre conflitos, fome e terremotos, Jesus oferece sua própria interpretação:

“Tudo isto é o princípio das dores.”

A figura é poderosa.

As dores do parto possuem significado porque fazem parte de um processo que caminha para um desfecho. Porém, uma contração isolada não informa, sozinha, todos os detalhes do nascimento.

Esse é o sentido que organiza Mateus 24:4–8.

Guerras não devem ser analisadas isoladamente.

Terremotos não devem ser analisados isoladamente.

Fomes não devem ser analisadas isoladamente.

Pestes não devem ser analisadas isoladamente.

O discurso é cumulativo.

E é justamente aqui que a pergunta muda.

A questão deixa de ser “houve mais terremotos este ano?” e passa a ser:

Estamos diante de uma geração em que vários elementos descritos por Cristo podem ser observados simultaneamente em escala mundial?

Essa pergunta é biblicamente mais séria.

Segunda perícope: Jesus muda das catástrofes para a condição espiritual da humanidade

Mateus 24 não termina nos desastres.

A partir dos versículos 9–14, a profecia avança para outro campo: perseguição, apostasia, falsos profetas, aumento da iniquidade, esfriamento do amor, perseverança dos discípulos e expansão mundial do Evangelho.

Essa mudança é fundamental.

Quem procura os sinais apenas em placas tectônicas, estatísticas militares ou hospitais está lendo somente parte do discurso.

Jesus também aponta para o comportamento humano, a condição espiritual da sociedade e a missão da Igreja.

O texto culmina com uma declaração extraordinária: o Evangelho do Reino seria anunciado pelo mundo inteiro, para testemunho a todas as nações, e então viria o fim.

Aqui surge outra dimensão da análise contemporânea.

A mesma geração capaz de acompanhar uma guerra praticamente em tempo real também possui tecnologias capazes de levar uma mensagem cristã a continentes inteiros em segundos.

Um missionário do primeiro século atravessava mares durante semanas.

Hoje uma tradução bíblica, uma pregação ou um testemunho pode atravessar o planeta instantaneamente.

Isso não estabelece um calendário profético.

Mas altera profundamente a dimensão possível da expressão “todas as nações”.

Terceira perícope: Jesus encerra ensinando vigilância, não cálculo

O discurso chega finalmente a Mateus 24:36–44.

E aqui Cristo coloca uma barreira contra toda tentativa de transformar os sinais em calendário.

O dia e a hora permanecem desconhecidos.

Essa declaração controla toda a escatologia cristã.

Jesus fornece sinais suficientes para produzir discernimento, mas preserva o momento suficiente para exigir vigilância.

Essa combinação é brilhante.

Se nada pudesse ser percebido, não haveria razão para observar.

Se a data pudesse ser calculada, não haveria necessidade de permanecer preparado.

Cristo apresenta um terceiro caminho: reconhecer os sinais sem transformar reconhecimento em presunção.

Os dados provam que estamos no fim?

Os números não funcionam como uma equação capaz de demonstrar matematicamente que determinada geração será a última.

Mas eles permitem uma observação difícil de ignorar.

Em 2025, os conflitos armados envolvendo Estados alcançaram o maior número registrado pelo UCDP desde 1946. Treze conflitos chegaram à intensidade de guerra. Centenas de milhões de pessoas continuaram enfrentando fome. Epidemias permanecem uma preocupação global. Grandes terremotos continuam ocorrendo em várias partes do mundo.

Ao mesmo tempo, alguns argumentos populares precisam ser abandonados: os terremotos não apresentam a escalada global frequentemente proclamada; a fome crônica mundial diminuiu em relação a cerca de vinte anos atrás; e os registros históricos de epidemias ainda não permitem comparações simples.

Nada disso enfraquece Mateus 24.

Ao contrário, obriga o leitor a retornar ao que Jesus realmente disse.

Cristo não entregou aos discípulos uma tabela estatística.

Ele descreveu um cenário.

E, acima de tudo, ensinou como seus seguidores deveriam viver dentro dele.

A profecia termina apontando para Cristo, não para o medo

A grande mensagem do discurso profético não é que o cristão deveria viver aterrorizado diante das manchetes.

Quando fala das guerras, Jesus ordena que seus discípulos não se perturbem.

Quando fala da perseguição, chama-os à perseverança.

Quando fala do engano, chama-os ao discernimento.

Quando fala do fim, direciona os olhos para sua própria volta.

Esse é o centro da unidade de pensamento.

A apologética cristã não precisa afirmar que cada desastre prova que Jesus voltará amanhã.

Existe uma afirmação muito mais sólida:

O mundo continua apresentando exatamente o tipo de realidade histórica que Jesus ensinou seus discípulos a reconhecer — conflitos entre nações, fome, doenças, terremotos, perseguições, engano e convulsão social. E Cristo advertiu que seus seguidores não deveriam interpretar essas coisas com pânico, mas com discernimento, perseverança, proclamação do Evangelho e vigilância.

Os dados podem informar nossa leitura dos acontecimentos.

As manchetes podem despertar nossa atenção.

Mas é a própria perícope que determina o significado.

Por isso, talvez a pergunta cristã mais importante diante das guerras, pestes, terremotos e crises de nossa geração não seja “quanto falta?”

A pergunta deixada por Jesus é muito mais pessoal:

quando o Filho do Homem vier, estaremos preparados?

Fontes consultadas: Uppsala Conflict Data Program/Uppsala University, FAO/Nações Unidas, EM-DAT/CRED-UCLouvain, Our World in Data, U.S. Geological Survey, Organização Mundial da Saúde e BMC Public Health.

FONTE/CRÉDITOS: Jota Silva